A cidade de todas as culturas
Do outro lado do planeta, fica uma das mais fascinantes cidades do mundo. A bela, surpreendente, liberal, jovem, excitante, civilizada e multiracial Sidney. Uma cidade nação onde tudo parece normal, que vive a olhar para o mar e que tem na Sidney Ópera House a sua mais marcante imagem de modernidade.
Por Fernando Borges
Bonita, limpa, descontraída, organizada, amigável, alegre, democrática e sempre ensolarada. Que mais se pode pedir a uma cidade? Que mais seria necessário para que Sidney fosse ainda mais fascinante, mais encantadora?
Talvez nada. Ou talvez apenas que estivesse um pouco mais perto de nós. Mas vale a pena percorrer esse meio mundo para chegar até ela, vale a pena tantas e tantas horas de avião. Porque a recompensa está logo ali, a escassos vinte minutos do aeroporto.
Nascida de uma colónia de prisioneiros britânicos, Sidney é uma cidade cercada por quatro baías, com um povo que vive uma rotina virada para a prática dos desportos ao ar livre, que tem fixação pelo mar e pela praia, que vive em função dos barcos onde, e como qualquer cidade do mundo assim projectada, todos os caminhos vão dar a esse mar. Sejam percorridos a pé, de patins, de barco-táxi..., mas sempre com o céu azul, a sua arquitectura clean e o mar como fantástico e encantador cenário. Poderão dizer que é igual a Lisboa, Barcelona, S. Francisco ou Rio de Janeiro. Mas não...
Em Sidney, uma cidade em constante estado de graça, percorrer cada caminho é um verdadeiro prazer, uma receita bemsucedida em que alguns ingredientes são acrescentados por acaso, tornando o gosto por esta cidade ainda mais irresistível. A simpatia e o bom humor dos australianos, o tempero que as diferentes migrações trouxeram, por exemplo, marcam a diferença entre elas e fazem de Sidney uma das metrópoles mais bonitas do planeta, uma cidade preparada para descanso dos olhos enquanto se caminha e sempre com vista para o mar e para constantes surpresas.
Uma nesga de Sydney Harbour, o porto em volta do qual a cidade cresceu esgueirando-se num cruzamento em direcção a uma charmosa ladeira que lembra São Francisco, embora seja menos pronunciada, dando volume à cidade. Mansões dos bairros requintados que se escancaram para a rua ou para o mar, a prática de um misto de igualitarismo pragmático com natural indiferença que acaba por resultar num cosmopolitismo sem preconceitos.
E há aquele tratamento gentil dos seus habitantes, os dias que se sucedem passados na famosa Bondi Beach ou numa outra das infindáveis praias, entre o senhor de fato e a jovem de biquini que toma um duche, ou os que simplesmente se passeiam, fazem jogging ou ginástica, os que patinam e outros que andam descalços, praticam surf, nadam, jogam à bola ou passeiam com o cão. E sempre sem que ninguém ache estranho a actividade alheia.
Em Sidney, cada um faz o que quer. Tolerante, a cidade acolhe diferenças e organiza-as harmoniosamente.
Tanto realiza o famoso Gay & Lesbian Mardi Gras, com o seu desfile carnavalesco, teatro e performances, como festeja datas tão díspares quanto o Ano Novo chinês, o aniversário da rainha da Inglaterra ou a Páscoa grega.
Embora até antes da Segunda Guerra Mundial a maior parte da população fosse de descendentes de ingleses e irlandeses, depois dessa data houve enormes migrações da Grécia e Itália, bem como da antiga Jugoslávia, do Líbano e da Turquia, sem contar vietnamitas, cambojanos, tailandeses, filipinos, indianos e europeus que chegaram depois, atraídos pelo alto nível de vida.
Mas foi graças a todos esses povos, sem esquecer os aborígenes, que já estavam ali antes de todos eles, que em Sidney é hoje comum encontrar jornais chineses, franceses, libaneses ou gregos, ouvir no mercado de final de semana no bairro antigo de The Rocks as vozes de Dulce Pontes ou Marisa ou degustar desde McDonald's a refeições malaias, pratos da Indonésia ou combinações de culinária francesa com produtos australianos típicos, como canguru.
E tudo isto faz parecer uma ironia bem planeada do destino que em apenas 200 anos levou uma cidade que surgiu para ser uma colónia penal, para onde as pessoas eram levadas da Europa para ficarem segregadas da sociedade, a transformar-se numa cidade cosmopolita e liberal. Se o intrépido capitão inglês James Cook pudesse voltar para ver o que deu aquele pedaço perdido de terra seca e inútil, fatalmente não acreditaria nos seus olhos.
Uma cidade que não só prosperou em somente dois séculos no espírito da boa vizinhança, simpatia e liberdade, como até a
arquitectura da cidade se transformou num exemplo de sucesso entre o velho e o novo, num “blend” curiosamente harmonioso.
E lá está, como exemplo, a arrojada Sydney Tower com seus 325 metros de altura e as típicas casinhas em estilo inglês vitoriano, uma secular igreja de pedras que surge ao lado de um arranha-céus espelhado, o requintado e popular Kings Cross que abraça o bairro da luz vermelha com suas casas de strip-tease, prostitutas e baixo mundo, e a sofisticada Ópera House, o maior postal ilustrado de Sidney e desse país-continente chamado Austrália.
Mas esta também é a capital da Nova Gales do Sul, constantemente votada pelas revistas internacionais de viagem como um dos melhores lugares do mundo para se viajar e onde tudo parece girar em torno de seu porto que, juntamente com a Opera House e a Harbour Bridge, formam um dos cenários mais fotografados e conhecidos do país e do planeta.
Um espaço onde encontramos o Aquário de Sydney, o Museu Marítimo, os shoppings e o Darling Habour, a mais popular área da cidade, e que fazem deste porto à beira da baía do Botany um verdadeiro delírio para os turistas de todo o mundo e onde tudo parece começar nesta vibrante, dinâmica e liberal cidade.
Uma cidade que tem nas Blue Mountains o espaço dedicado aos amantes da natureza, na Georgi Street o seu centro histórico, na Queen Victoria Building o arrojo da modernidade, na Pitt Street Mall o glamour e o sonho das compras, no Molly Bloom’s Bar a animação, no Edna’s Table a maior aventura gastronómica e, na Bondi Beach, a mais famosa das praias no mundo do surf.
Que mais se poderá dizer sobre esta fantástica cidade?
Talvez apenas, que não é por acaso que um dos apelidos de Sidney é “Slice of Eden”, ou seja, Fatia do Céu.
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