|
Onde uma imagem vale mais que mil palavras
Quando a fotografia passou a fazer parte integrante do jornalismo, de imediato se transformou num testemunho vivo da humanidade, no abrir de uma janela para o mundo, num apelo forte aos sentidos. Era a resposta ao “ver para crer”, a substituição da linguagem verbal ou escrita pela imagem. Era a criação do fotojornalismo, em que o impacto imediato era o seu elemento fundamental.
Era a capacidade de exibir toda a informação numa só imagem, de poder passar essa mesma informação com beleza.
E quando os cenários que se apresentam à frente de uma objectiva se vão sucedendo, qual gesto de magia, em que cada um é mais deslumbrante do que o outro, deixa de haver necessidade de palavras para passar essas imagens de beleza e fascínio. Basta um click de uma máquina fotográfica. E todo o sonho se transforma em realidade.
É um pouco de tudo isto que nos é oferecido quando temos como destino o Quénia, um portfolio natural que combina cultura, aventura, experiências de vida e prazer estético puro. E assim nasce uma foto-reportagem, onde cada imagem vale mais que mil palavras.
Por Fernando Borges
Muitos sonham com uma viagem preenchida de experiências originais harmoniosamente embrulhadas em beleza e fascínio, um destino que mescle exotismo e aventura, um paraíso onde a vida lateje ao ritmo da liberdade. Assim aparece no nosso imaginário esse país que dá pelo nome de Quénia e que se destaca por ser o coração de um mundo procurado por turistas mais ou menos bronzeados, com máquinas fotográficas e binóculos a tiracolo. Turistas que se cruzam no lobby do histórico Stanley Hotel, em Nairobi, ou que se sentam na esplanada do Long Bar enquanto esperam para serem transportados para um mundo para muitos apenas conhecido através do National Geographic, o Lago Nakuru. O mesmo hotel que recebeu Ava Gardner e Clark Gable e que foi refúgio de Hemingway.
“Uma paisagem cheia de vislumbres e ilusões”, como escreveu Karen Blixen e onde, no calor do meio-dia, “o ar oscila e vibra como as cordas de um violino”.
É este o mundo sobrevoado pela escritora na companhia do seu amigo e amante Denys Finch-Hatton e que foi cenário natural recreado por Sidney Pollak no filme “África Minha”. Um lago azul celeste com milhares de flamingos rosados e vermelhos que evoluem em largos círculos e que aqui e ali parecem desenhos chineses pintados sobre a mais fina seda, formando-se e modificando-se perante os nossos olhos e perante os olhos de dezenas de pelicanos que deslizam pelas águas menos profundas.
É o Lago Nakuru em todo o seu esplendor que, ao entardecer, parece envolver-se numa nuvem contemplativa, musical e opulenta, enquanto nas suas margens verdejantes se passeiam rinocerontes, zebras e búfalos.
Este é um destino único. Um espaço purificado pela lenda cuja calma das acácias e a suavidade das colinas, que parece nunca mais terem fim, nos oferece uma imagem clássica mas real da grande savana. A imagem a que nos habituámos a ver no National Geographic ou no Odisseia, mas que aqui é tocável, sentida e viva. Diremos mesmo, asfixiante.
Um cenário divino que parece preceder uma representação prodigiosa, sem limites, num constante convite para que façamos parte integrante dessa atmosfera diáfana e onde apenas faltam as cornetas do Dia da Criação.
É a grande reserva Masai Mara que a cada segundo nos parece pedir para ser olhada e sentida de uma forma lenta, desejada e apaixonada. É aqui, neste infindável espaço, que sentimos ter encontrado o coração da Grande África.
Masai Mara, em Novembro, está coberta de capim pouco alto. Mas este é um cenário que aparece após uma das mais estranhas aventuras naturais do nosso planeta: a partida de mais de 300 mil zebras, 1,6 milhões de gnus e 500 mil gazelas, como que arrastadas por uma maré, com toda uma troupe de teimosos predadores no seu encalço, em direcção da vizinha Serengueti.
Partiram à procura de erva fresca numa louca rotina migratória, desconhecendo que podem tornear o rio em vez de o atravessar. Nas margens do Mara, esperam-nos esfaimados crocodilos. Quando o cruzam, empurrados por uma avalanche de corpos, os turistas assistem a um ritual de sangue e animalidade.
Para trás, sempre ficam alguns desses actores que fazem parte de uma das histórias mais vividas e cruéis da Mãe Natureza.
Por cada quilómetro percorrido na estrada de terra batida, aqui e ali atravessada por uma zebra a galope, mais nos aproximamos de um dos grandes atractivos de qualquer viagem ao Quénia, do contacto directo com um povo misterioso e que tanta admiração causa, os masai. “Indómitos e esplêndidos, de olhos selvagens e magníficos”, segundo Joseph Conrad, “orgulhosos e corajosos, de grande beleza física e extremamente cuidadosos na forma como se adornam”, para Evelyn Waugh. Mas ninguém conseguiu até hoje falar da postura dos guerreiros masai como fez Karen Blixen no seu livro “África Minha”, fazendo mesmo uma relação com o conceito europeu do “chic”.
“Selvaticamente fantásticos como são, continuam a adaptar-se de forma implacável à sua própria natureza e a um ideal imanente”, escrevia Karen. “Quando um jovem masai dispara a sua flecha e solta a corda do arco, parece que ouvimos os tendões do seu largo pulso cantando no ar com a flecha”, acrescentava a escritora.
É um mundo visível quilómetro atrás de quilómetro e que se vai estendendo perante os nossos olhos através das estradas que cortam as planícies do Quénia, com dezenas de crianças saudando cada carrinha que passa com um alegre “jambo, jambo!”, até que estas param às portas de um aldeamento masai em plena reserva Masai Mara.
Aqui, jovens e adultos recebem os turistas-homem no seu grupo e desafiam-nos para que os acompanhemos nas suas danças tradicionais compostas por saltos, numa exaltação masculina. Para eles, é em cada impulso de cada salto que reside o factor que nos converte em seres desejados pelas mulheres. Mulheres que magicamente aparecem vindas do interior da aldeia, qual deusas cobertas dos mais coloridos trajos e envoltas em cânticos e danças.
Ninguém contestará que o grande apelo que se sente está no grande mosaico que compõe a sua vida animal. Mas o Quénia oferece mais do que essa vida passada nas savanas. Praias de grande encanto, um litoral culturalmente rico e uma cidade, Mombasa, pródiga na sua história feita de séculos de comércio e de todos os tipos de influências.
E é ao percorrer a parte velha da cidade, as suas ruas estreitas onde mal passa um carro, que se encontra todo um novelo cultural marcado principalmente por um rico e multifacetado legado arquitectónico deixado por culturas que aqui governaram ou que por esta costa africana passaram.
Mesquitas, edifícios de estilo colonial britânico, outros de pura traça swahili e o não menos importante Forte de Jesus, um legado português, reflectem toda essa mistura cultural.
A descontracção toma conta do viajante logo que se chega à costa queniana, depois de inebriantes dias percorrendo e vivendo as mil e uma sensações colocadas perante os nossos olhos pela imensidão sem fim do verdejante Rift Valley e da grande savana. À nossa frente, e enquanto saboreamos a tranquilidade e o requinte oferecido pelo Mombasa Serena Beach Hotel e ecoa no ar um “hakuna matata”, o azul do Índico convida-nos a um refrescante mergulho entre os recifes de coral e coloridos peixes, para tranquilos passeios matinais ou de final de tarde pelos brancos areias bordeados de palmeiras, aqui e ali plantados de coloridas toalhas e envolventes pareus, por vendedores de artesanato ou pelo doce navegar numa piroga ostentando uma vela latina.
No Quénia, as manhãs chegam “pole pole”, que é como quem diz, lentamente. E esta é a melhor forma receber o que nos chega através do Índico, de manhã bem cedinho. Um nascer-do-sol único, diferente, fascinante. Principalmente para quem vive a ocidente do Velho Continente e nunca viu o astro-rei nascer e reflectir-se sobre as águas plácidas de um qualquer oceano. Um espectáculo de beleza rara.
Mas os fins de tarde não deixam de ser menos fascinantes. É o pôr-do-sol na imensidão da savana africana confundindo o horizonte em tons vermelhos, laranjas e liláses, numa arrogância legitima e pura, transfigurando gradualmente uma paisagem já por si bela mas que, nesta altura do dia, ganha uma dimensão especial onde a paz e a tranquilidade ganham um sabor próprio.
E quando a noite se aproxima e as acácias vão-se confundindo com essa mesma noite, enquanto no ar esvoaça uma melodia quente vinda das entranhas da savana, a noção do tempo perde-se em lendas e realidades. Mas lá está o Cruzeiro do Sul a lembrar que estamos num outro hemisfério, num continente feito de magia. África!
|