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Pérolas de encantar sobre o Pacífico

Azul safira das águas, brancas e resplandecentes areias de corais, verdes e brilhantes as elegantes palmeiras. São estas as três cores dominantes de um conjunto de ilhas que se espalham pelo Pacífico, autênticos objectos de sonho que se podem tocar, sentir e viver. É o Tahiti e as suas 118 ilhas. Mas falamos também de paixão, a mesma que prendeu Paul Gauguin.

Perfeição! É esta outra palavra e outra sensação que por certo tomará conta de quem, durante horas, no tombadilho de um veleiro que tranquilamente vai rasgando as águas do Pacífico Sul, acompanha o sol a caminho do poente.

Que outro adjectivo poderia encontrar-se no dicionário para ilustrar, ainda que de uma forma longínqua, todo o encanto que se apodera de cada um de nós, ainda dentro de um hidroavião, e se vê perante dezenas de ilhas de um verde luxuriante e rodeadas de brancos corais que polvilham límpidas águas desse azul safira?

Após esses momentos de deslumbramento visual que desejamos não mais terminem, e mal os nossos pés tocam terra firme, um tocar que fazemos insconscientemente de uma forma o mais suave possível com receio de perturbar toda a paz que nos envolve, belas mulheres de cor canela e colares de flores, soltam, entre sorrisos cristalinos, um musicado ia bora, maeva ou manava, as três palavras de saudação e de boas vindas com que os polinésios recebem quem os visita.

Ao mesmo tempo, outras vozes vão entoando ondulantes cânticos, enquanto ofertam colares multicolores, floridas tiaras e coroas de gardénias, deixando no ar um perfume muito suave.
Ritmando esses cânticos, corpos masculinos geometricamente tatuados, lembrando-nos as suas origens mahori, vão dedilhando guitarras e ukeleles, como se de um reencontro entre amigos se tratasse.

A imagem que estes gestos de simpatia e alegria transmitem, é de que o tahitiano tem orgulho nas suas ilhas e deseja compartilhar toda a sua alegria de viver com os convidados.

Sobre esbeltos coqueiros, descobre-se o gosto natural pelas festas, pelas danças, em que a musicalidade se expressa nos cantos polifónicos da sua música religiosa, no ritmo das precursões dos tradicionais pahu e toeres, ou ainda através da harmonia das guitarras e ukeleles das orquestras kaina.
Mas as ofertas não ficam pelos gestos dos seus habitantes, sempre reflectidas na sua paixão pelo mar. Também a natureza não se cansa de nos oferecer momentos inesquecíveis.

Entre ilhas altas e baixas, o Tahiti é bem mais do que uma simples conjugação de ilhas prodigiosas e naturalmente generosas.
São as verdes ilhas de altos picos nublados e que escondem cascatas impetuosas e exuberantes vales, rodeadas de barreiras de recifes, de praias de areia preta basáltica e de brancos corais. Montanhas que nas obras de Gauguin mostram-se azuis, violetas, alaranjadas ou ocres, segundo os reflexos do dia, e que se prolongam majestosas sobre o profundo azul do Oceano Pacífico, enquanto a aurora e o entardecer tomam sempre cores que variam entre o amarelo pálido e o vermelho escarlate.

É um convite a passeios a pé ou a cavalo, a um simples estar numa cama de rede estendida num qualquer terraço de um bungalow suportado por estacas sobre transparentes águas, entre duas palmeiras, ou aceitar um gracioso haere mai, que é como quem diz, venha comigo, e partir numa piroga em direcção ao mar.

Mas também nas ilhas baixas, atóis se entrelaçam em lagoas interiores e a cor das águas passam do verde jade ao azul turquesa, de intensa luminosidade, onde inúmeras ilhotas povoadas de coloridas aves do paraíso e infindáveis praias cheias de coqueiros e conchas, convidam a um mergulho entre milhares de peixes de cores garridas e brilhantes, transmitindo um intensa felicidade.

E é sem dúvida, ao mergulharmos nas águas cálidas que rodeiam cada uma das 118 ilhas que formam o Tahiti, que somos assaltados por sensações que, até então, julgávamos não fazer parte do nosso eu.
Perante os nossos olhos, passam pequenos bandos de peixes mariposa, peixes anjo, peixes palhaço…, e tartarugas brincando à volta dos corais, como que de um baile familiar se tratasse, enquadrados pela majestosidade das grandes raias que ali parecem pairar, numa pequena amostra da diversidade do arquipélago e dos seus fundos marinhos.

Mas seja nas ilhas altas ou baixas, a exuberâncias das flores e das suas profundas fragrâncias são uma outra forma de encantamento, “que nos fazem perder a memória e afastando as inquietudes sobre o futuro…”, como um dia escreveu o mestre Matisse.

Odores florais que se misturam no ar com os libertados pelas dezenas de frutos, adoçados com o sabor a baunilha e do coco, com o cheiro do marisco e do peixe que na praia ou no bungalow no meio de uma lagoa vai sendo assado, ao anoitecer, entre focos de fogueiras, música e danças, num testemunho da alegria destas gentes, para quem a vida não é para ser vivida, mas sim saboreada.
No final, fica a sensação que ao visitante nada mais é pedido para além de que se receba e se deixe conquistar.

Já de partida, e antes de comprarmos uma das muitas pérolas de diversas cores, uma pequena recordação dos intensos momentos vividos nos mares do sul, apenas uma palavra se consegue pronunciar: maururu, ou como quem diz, obrigado.

E terá sido essa sedução que cativou tantos artistas e escritores, como Guy de Maupassant que, no final do séc. XIX, ali aportou no seu Bel-Ami, tendo afirmado que nunca antes tinha provado uma emoção tão intensa.


DESTAQUE

Destino de romances e paixões, as ilhas do “fim do mundo” representam o Éden, o jardim das delícias que dizem terem sido desfrutadas pelo primeiro Homem e pela primeira Mulher, Adão e Eva. E quem as visitas, parte convencido que esta possível lenda é uma realidade.