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Um cantinho na Ásia com sabores portugueses

Durante cerca de 450 anos, fez parte do território português. Depois, a China tomou este pedaço de terra nas mãos, transformando-a aqui e ali. Contudo a herança portuguesa ainda continua presente, e ninguém a quer perder. Entre edifícios de traça lusitana e templos taoistas, entre o cozido à portuguesa e o Ta Pin Nou, uma espécie de fondue à chinesa, ou entre o cantonense e o por vezes audível “bom dia”, Macau segue enfrentando o futuro sem esquecer o passado. Mesmo que cada vez mais viva em função dos mega hotéis que albergam uma nova e crescente realidade e à volta da qual tudo gira: os casinos. Irão as tradições lusas e europeias resistir ao abraço cultural e aos costumes vindos do outro lado do delta do Rio da Pérolas ou do lado de lá das Portas do Cerco? Há quem acredite que sim…

Por Fernando Borges

Situado a apenas 65 quilómetros de Hong Kong, na margem oposta do estuário do Rio das Pérolas, no outro lado do mundo, numa pontinha de uma planície do sul da Grande China, encontramos a mais antiga colónia europeia na Ásia: Macau. Uma particularidade que se deve aos intrépidos e aventureiros navegadores portugueses que começaram a percorrer no século XVI, os oceanos da costa do Pacífico com os seus ágeis galeões.

Era o início de uma bela história de amor, incluindo a de Luís de Camões, mas que também passava por uma história de favores e contra-partidas, com a China a permitir que o reino de Portugal, em 1557, criasse um pequeno entreposto comercial no seu território em troca da expulsão dos piratas que infestavam os mares do sul do império.

E assim foi durante quase três séculos, com Macau a transformar-se no principal ponto de comércio com os chineses até que em 1842, quando os ingleses, vitoriosos nas guerras do ópio, anexaram uma área do continente chinês e estabeleceram a colónia de Hong Kong.
Mas os portugueses por lá continuaram por mais alguns séculos, protegendo e governando esta pérola do oriente, até se tornar Região Administrativa Especial em 1986, com total autonomia, excepto nos assuntos de defesa e política externa para, em 1999, ser transferida definitivamente para o controle chinês.

Hoje, passados todos estes séculos de história, os portugueses continuam a olhar para Macau com uma certa ternura e alguma nostalgia. E os que visitam este bocado de terra no outro lado do mundo, que cada vez são mais, não deixam de ser invadidos por uma sensação estranha. A de ver nomes portugueses identificando as ruas, em conjunto com nomes em chinês, edifícios no mais profundo estilo colonial português, puramente neoclássicos, palácios e igrejas que bem poderiam estar numa qualquer rua de uma qualquer cidade ou vila portuguesa. E há aquela sensação não menos estranha de pisar, a milhares de quilómetros de distância, a genuína calçada portuguesa.

Uma sensação estranha que mais se acentua quando olhamos à nossa volta e dificilmente identificamos feições que tenham qualquer ligação com Portugal entre o meio milhão de pessoas que ocupam esses escassos 28 km2.
Todavia continua a ser visível e sentida, principalmente para quem tem como língua-mãe a língua de Camões, a memória do convívio entre o Ocidente e o Oriente, entre portugueses e chineses.
 
A exemplo do que acontece com a maioria dos ocidentais que visitam Macau, a principal porta de entrada para os portugueses é feita pelo mar do sul da China, usando a ligação de barcos rápidos – turbojet - que funcionam quase 24 horas por dia, de hora a hora, a partir de Hong Kong.

E é estranho, ou talvez não, que a ansiedade de observar o mais antigo legado arquitectónico europeu em solo chinês, logo que se pisa Macau, mesmo para os não portugueses, nos leve a apanhar um táxi ou um autocarro directamente para a Praça do Senado, indicado em língua portuguesa nos mapas de caracteres chineses.

É este o centro de Macau, em calçada portuguesa, com o edifício do Leal Senado a impor toda a sua beleza. Um lugar também marcado por outras construções que oferecem no seu conjunto uma unidade tradicionalmente lusitana, como a igreja de Santo Agostinho, o teatro D. Pedro V, o edifício da Santa Casa da Misericórdia, a igreja da Sé ou a igreja de S. Domingos, enquanto ali ao lado o templo taoista de Sam-Kai-Kun reforça a dualidade arquitectónica da cidade.

É aqui, na Praça do Senado, que continua a ser o local mais popular para eventos públicos e festejos, que desaguam centenas de turistas, chineses e macaenses de aparência marcadamente cosmopolita, sendo igualmente o principal ponto de encontro de jovens namorados com cabelos pintados, roupas coloridas e muita descontracção.
Macau não é apenas este legado histórico e arquitectónico centrado à volta da Praça do Senado, das não menos admiradas ruínas de S. Paulo, talvez a mais internacional e conhecida imagem do território, ou da Fortaleza do Monte, de onde se tem uma vista geral de Macau e que se estende já pela China continental.

É também a Macau que mereceu as honras de ser consagrada em 2005 como Património da Humanidade pela UNESCO, a Macau do Jardim de Camões, do jardim Hong Kong Miu ou Lou Lim Leoc, verdadeiros oásis de tranquilidade, bucolismo e exotismo, onde os chineses se encontram para jogar dominó, passear as suas gaiolas por entre pequenos percursos rodeados de bambus e lagos onde proliferam flores de lótus, exercitarem-se aos primeiros raios de sol em doces e suaves movimentos de Tai Chi e Chi Kung ou interpretar peças da ópera chinesa.

Existe também a Macau das lamparinas chinesas que iluminam velhos bazares rodeados de modernas vitrinas com os mais internacionais griffes, dos mega neons em caracteres chineses que anunciam ali existir mais um casino, das casas de penhores, dos pagodes e templos envoltos em fumos e odores de incenso, como o de Á-Má, o mais venerado de todos eles. A Macau das ruas estreitas percorridas por tendas e bancadas onde tudo se negoceia e se come, do Mercado Vermelho, dos pequenos altares discretamente colocados ao longo das ruas, esquinas ou à porta das casas, para afastarem os maus espíritos, dos prédios protegidos por grades para que os bons espíritos não saiam…

A Macau do bairro de fantasia de “The Fisherman’s Wharf” que reproduz edifícios e cenários de diversos países, desde uma praça tipicamente portuguesa com o inevitável restaurante Camões, a um hotel da Louisiana ou ao Rock’s, do Coliseu de Roma, ao Royal Ópera House ou mesmo a um tradicional e romântico café parisiense.Ou a Macau do Museu do Vinho, que testemunha todas as regiões demarcadas da vinicultura portuguesa identificadas por manequins vestindo a rigor os trajes das diversas regiões, ou do Museu do GP de Macau, o único que tem direito a ter GP no seu nome sem pertencer ao circuito da Formula 1, ou de outros vinte museus e da Torre de Macau. A décima torre mais alta do mundo, nos seus 318 metros, com um restaurante rotativo que permite uma vista única sobre todo o território e as luzes brilhantes dos casinos e hotéis, um vertiginoso passeio à sua volta sobre uma plataforma suspensa ou uma adrenalínica escalada.

É também a Macau das ilhas de Taipa e Coloane. Pedaços de terra conquistados ao mar, unidas por um istmo e ligadas à península por um conjunto de modernas pontes.
A ilha de Taipa de intensa vida nocturna, dos grandes hotéis e casinos, dos bares onde dançam jovens tailandesas, vietnamitas e russas, das ruas e calçadas onde imperam nomes portugueses entre lojas e pequenos templos chineses, do aeroporto internacional, do jockey club, da avenida da praia ou da tasca do O-Manel onde se pode degustar tradições da gastronomia portuguesa.
Ou a ilha de Coloane dos espaços verdes, os poucos que se encontram em Macau, dos miradouros, das aldeias que já foram exclusivamente de pescadores, do Macau Golf & Country Club, da pequena igreja de São Francisco Xavier e dos restaurantes onde moram e resistem o cozido à portuguesa, o bacalhau à Gomes de Sá, bacalhau assado, a carne de porco à alentejana ou as sardinhas assadas, sempre acompanhadas de um Dão, Borba ou João Pires e onde não falta a “serradura”, os “papos de anjo” ou o “toucinho do céu”.
Mas, entre histórias, patrimónios e tradições, entre pastéis de nata e Char Siu Pau – pãezinhos no vapor recheados com carne de porco -, amêijoas à Bulhão Pato e Tsun Guen – crepes de camarão recheados com pedaços de carne de porco, galinha, cogumelos, rebentos de bambu e feijão - um Herdade do Pinheiro e um Pou Lei – chá vermelho - uma nova Macau tem emergido na última meia década. A Macau que se dirige para reinar no mundo dos casinos e cada vez mais seja vista como a nova capital mundial do jogo e dos congressos.

A Macau, ou a Las Vegas do Oriente, que ao tradicional, emblemático e mundialmente conhecido Hotel e Casino Lisboa, inaugurado nos anos 60, e mais uma vintena de casinos, juntou o Grand Lisboa, o Sands, o Winn, o Venetian - actualmente o maior casino do mundo e uma recriação da cidade de Veneza, com canais, gôndolas, 3000 suites e que albergará o Cirque du Soleil -, e o MGM Grand Macau, o mais recente casino de Macau com uma decoração e design inspirado na arquitectura que faz a história de Lisboa.
E tudo isto enquanto mais um bocado de terra roubado ao mar, Cotai, uma zona entre Coloane e Taipa, continua a reafirmar-se e a preparar-se para receber outros mega empreendimentos para fazer companhia ao ali já existente Venetian. Mega hotéis-casino ligados a não menos mega grupos que incluem o Four Seasons, Shangri-La, Traders, Sheraton, St. Reggis, Hilton, Conrad, Fairmont e Raffles que, no total, representarão mais de 40 mil quartos.

Números incontornáveis que direccionam esta nova Macau no caminho de se tornar um dos mais procurados destinos turísticos, tendo recebido em 2007 mais de 22 milhões de turistas, contra dois milhões em 1999 e que já ultrapassou Las Vegas em volume de negócios. É Macau à conquista do mundo oriental e ocidental muitos séculos após a chegada dos primeiros europeus idos da ponta mais ocidental da Europa, o povo de Camões, levados em frágeis galeões à procura da árvore das patacas.

COMO IR

Sem voos directos entre Lisboa e Macau, com a melhor opção a passar por Hong Kong e aí atravessar o delta do Rio das Pérolas nos rápidos jetfoils, a Lufthansa, via Frankfurt, apresenta-se como uma boa escolha para ligar Portugal ao seu antigo território oriental.

Outra opção para chegar a Macau é através da Malasia Airlines, para mais informações contactar a AMPLIAR

Sites de interesse:

www.lufthansa.com
www.turbojetseaespress.com.hk

Centro de Promoção e Informação Turística de Macau

Av. 5 de Outubro, 115 R/C
1069-204 Lisboa
Tel.: 217 936 542

www.macautourism.gov.mo

ONDE FICAR

Com 54 hotéis, ligados às mais famosas cadeias hoteleiras internacionais e 31 pensões, num total de 17 mil quartos, Macau oferece uma das maiores concentrações de hotéis por m2. Logo, a dificuldade estará na escolha. Uma dificuldade que ano após ano será aumentada pela simples razão que nos próximos dez anos essa capacidade será aumentada com a construção de 70 novos hotéis de quatro e cinco estrelas, correspondendo a um total de 40 mil quartos.
A escolha da Across fica pelo inevitável Hotel Lisboa, o Mandarin Oriental, a Pousada de São Tiago, o Wynn, o “italiano” Venetian, o novíssimo e muito lisboeta MGM Grand Macau e o belíssimo Rocks Hotel, no estilo belle époque, localizado na tranquila Doca dos Pescadores.

Macau, Património Mundial da Humanidade  

Em Julho de 2005, o centro histórico de Macau passou a fazer parte da lista do Património Mundial da Humanidade da UNESCO.

Merecidamente, os espaços urbanos como o Templo de A-Má, o Quartel dos Mouros, o Largo do Lilau, a Casa do Mandarim, a Igreja de São Lourenço, o Seminário e Igreja de São José, o Teatro D. Pedro V, a Biblioteca Sir Robert Ho Tung , a Igreja de Santo Agostinho, o Edifício do Leal Senado, o Templo de Sam Kai Vui Kun, a Santa Casa da Misericórdia, a Igreja da Sé, a Casa de Lou Kau, a Igreja de São Domingos, as Ruínas de São Paulo, o Templo de Na Tcha, o Troço das Antigas Muralhas de Defesa, a Fortaleza do Monte, a Igreja de Santo António, a Casa Garden, o Cemitério Protestante, incluindo a Capela Protestante, a Fortaleza da Guia e o Farol, o Largo da Sé , o Largo de São Domingos, o Largo da Companhia de Jesus e o Largo de Camões, foram todos reconhecidos como fazendo parte da história mundial, pois ilustram bem os primeiros e mais duradouros encontros entre a China e o mundo ocidental.

Grande Prémio de Macau

Uma das atracções de Macau é o seu Grande Prémio. Uma série de provas de automóveis e de motos que se realiza anualmente, em Novembro, desde 1954, que tem na prova de Fórmula 3 a mais esperada de todas, sendo a única prova automobilística do mundo que tem a sigla GP sem pertencer ao calendário da Formula 1.
Uma prova em que os melhores pilotos do mundo são convidados a participar e um dos circuitos mais emocionantes do Mundo. Um circuito que percorre o meio da cidade, intercalando longas rectas - Porto Exterior - com as sinuosas curvas do Monte da Guia ou a curva do Hotel Lisboa.
Uma prova por onde já passaram os mais famosos pilotos de Fórmula 1 e que utilizaram o GP de Macau como trampolim para a prova rainha dos desportos motorizados. Ayrton Senna, Michael Schumacher, Mika Hakkinen, David Coulthard, Ralf Schumacher, Pedro Lamy ou Pedro Couceiro são alguns dos nomes que preenchem a sua história.

A Igreja de São Paulo

Desde 1565, os jesuítas estabelecidos em Macau envolveram-se em acções educativas e missionárias. Criaram o Colégio Madre de Deus, a primeira universidade de modelo ocidental do Extremo Oriente. Em 1602, o colégio passou a contar com uma nova igreja, construída por chineses e japoneses, impressionando diversos visitantes do século XVII. Com a expulsão dos jesuítas em 1762, instalou-se no colégio um batalhão militar. O incêndio de 1835, que teria começado na cozinha do quartel, destruiu a igreja e quase todo o complexo original do colégio. Restou a fachada da maior igreja construída no mais longínquo território colonizado pelos portugueses, tornando-se uma das mais emblemáticas imagens de Macau