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Uma cidade com alma! Na vasta enseada de areia fina e branca em forma de meia-lua com suas águas de esmeralda translúcida, agora nua dos antigos barcos de proa normanda recurva e alta e das redes de xávega mourisca, podem ainda ver-se, pescadores com camisas aos quadrados e mulheres com as suas inúmeras saias sobrepostas, remendando as redes e secando o peixe, tarefas que perduram como memória de uma intensa e permanente actividade piscatória, que não há muitos anos, davam vida, durante o ano inteiro, ao vasto areal que se estende em frente à cidade da Nazaré. Por Ana Ricardo Era domingo e eu vi a alegria contagiante estampada na face das mulheres, as varinas das sete saias, o orgulho e a vaidade com que exibiam os seus tradicionais fatos domingueiros. Dos mais simples aos mais elaborados, fossem de popelina, de veludo ou de seda, com aventais coloridos finamente bordados e aplicações de renda. As meias grossas, usadas até ao joelho, delicadamente urdidas em linha branca, formando desenhos em relevo, contrastavam com as tairocas de cor escura ou verniz preto, que pareciam ameaçar cair dos pés a cada passada. Os lenços coloridos eram atados no alto da cabeça. Algumas traziam o colo enfeitado com vários cordões e medalhões de ouro, das orelhas pendiam grandes arcadas, lembrando tempos de abundância na faina. Das jovens de tenra idade, até às mais calejadas pela vida, por detrás de rugas vincadas nas faces tisnadas pelo sol, eu vi, como os seus olhos brilhavam de contentamento. O dia estava soalheiro, convidava a passear pela radiosa praia, que bordeja a grande baía da cidade da Nazaré. Ao percorrer a marginal a pé, não deixei de espreitar as ruas estreitas e tortuosas, com as casas caiadas de branco e as sacadas em madeira, lembrando as velhas tradições e o senso estético das mais remotas povoações do litoral. De acordo com uma lenda, a origem do nome da cidade deriva de uma estátua da virgem, que foi trazida da Nazaré na Palestina, por um monge no século IV. Um elevador construído em 1889, leva-nos da marginal ao Sítio, oferecendo-nos ao mesmo tempo um notável passeio panorâmico. O Sítio é uma falésia elevada, no coração do centro histórico, com um miradouro sobranceiro ao promontório com uma vista deslumbrante sobre a cidade e a sua orla marítima. Segundo reza a lenda, foi aí que a virgem salvou de morte certa D. Fuas Roupinho, um dignitário local, ao impedi-lo de seguir um veado que saltara da falésia para o nevoeiro em 1182. Em homenagem à virgem, à beira da falésia se ergueu a Ermida da Memória. O Sítio é o principal ponto de atracção da Nazaré e é um lugar secular de peregrinação e culto de forasteiros e locais, onde muito se ansiou e rezou pelos sucessivos regressos dos homens da faina. Aqui, dedique algum tempo a visitar os locais de interesse cultural e a sentir o poder e a grandiosidade do oceano que se estende a perder de vista, onde apreciar o fim de tarde, com o sol a beijar o mar, cobrindo-o com um imenso manto de luminosidade de prata, é imperdível. De bicicleta ou a pé, renove as energias, apreciando a beleza da paisagem, ao percorrer a “Estrada Atlântica”, cuja ciclo via, com uma extensão total de 45,6 Km, faz a ligação entre o Sítio e a Praia do Osso da Baleia. Um percurso a não perder, onde poderá admirar a beleza ímpar do pôr-do-sol. São igualmente dignos de visita, a Igreja Barroca de Nossa Senhora da Nazaré, o Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, com um acervo museológico de carácter local e regional, onde pode ver para além de objectos arqueológicos e etnográficos, pintura, fotografia, embarcações tradicionais e trajes nazarenos. Os arredores merecem igualmente ser visitados. Na saída do Porto de Abrigo, a caminho da praia do Salgado e logo após a Ponte das Barcas, vire à direita e visite a Igreja de S. Gião, importante templo visigótico datado do século VII, único na Península Ibérica. De S. Martinho do Porto com a sua bela enseada, que por ser uma praia arenosa numa baía quase fechada é a preferida pelas famílias com crianças, Em todos estes locais, a gastronomia é rica e variada e há para descobrir, muitas especialidades regionais. Delicie-se com os pratos à base de marisco e peixe fresco regados com um bom vinho e traga consigo o inesquecível sabor a mar. Na hora da sobremesa, não se esqueça de saborear os Barquinhos da Nazaré. O artesanato é feito de cores e texturas diversas. Os bonecos trajados a rigor, as miniaturas das embarcações de outros tempos, a cestaria, a cantaria ou a tecelagem, podem ser encontrados nas casas da especialidade ou em vendedores de rua e serão sem dúvida a prova viva de que lá esteve e trouxe consigo um pouco da alma daquele acolhedor e simpático povo. |
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