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Blog da Viagem

 

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Pelo mediterrâneo em Português

Porto de Lisboa. Ancorado estava o clássico e luxuoso cruzeiro “Princess Danae” que nos iria levar a destinos como Cádiz, Casablanca, Marraquexe e Tânger, embalados pelo som dos violinos, do piano, de vozes suaves, fortes, salpicadas com alegria, danças, convívio, emoção, descontracção, cumplicidade, curiosidade, surpresa….durante 5 dias, 4 noites.

Por Manuela Silva Dias

Duas horas passavam do meio-dia e o Comandante cumprimentava todos os passageiros que subiam para uma nova experiência e todos os que, não sendo a sua primeira viagem a bordo do “Princess Danae”, já levavam na bagagem muitas inesquecíveis recordações.

Pouco depois partimos, e de seguida, o primeiro almoço. Sentei-me a saborear tudo quanto era novo para mim, a atmosfera do navio, o staff, as pessoas, a decoração do buffet com obras de arte esculpidas em simples frutas e legumes, a absorver o que me rodeava com uma sensação de paz que me era transmitida por todo aquele ambiente!

O “Princess Danae”, com os seus 7 decks e 288 camarotes, tem piscina, cinema, sauna, salão de festas, bares e uma zona de fitness com vista para o mar.

No “Club Room” já a ´sueca´ fazia rodopiar as cartas nas mãos dos jogadores e as peças de xadrez ganhavam vida nos seus tabuleiros, começando novas batalhas. A biblioteca, um verdadeiro apelo à leitura daquele livro, que há tanto tempo, está à espera de companhia, o internet café, o salão de festas, o jardim de inverno, o casino, a boutique, o cabeleireiro, o restaurante e, por fim, o piano bar, onde aproveito para um aperitivo musical , saboreando um delicioso cocktail do dia: “Princess Danae”, simplesmente relaxante…

Às 21:30, o jantar de boas vindas, um jantar gourmet preparado pelo chef José Rodrigues, um verdadeiro ´must´ gustativo, tudo acompanhado ao som de música clássica.
Mais tarde, o show de variedades no salão de festas, a Banda “ Oceanus” que nos fez reviver músicas dos anos 20 aos 60 e convidou todos a dançar.

O piano branco, elegante, iluminou o salão. Mário Moita tocou e encantou com uma sonoridade romântica de fado ao piano e uma voz melodiosa trabalhada para um reportório lírico.
A lua-cheia espreitava atenta através das janelas do salão. Dirigi-me para o exterior para apreciar aquela maravilha. Estava enorme e brilhante no meio da escuridão, ao som do ondulante mar, nada mais, só eu, o mar e o luar. Veio-me à memória um dos poemas de Sophia de Mello Breyner

Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.
A tua beleza, aumenta, quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
In “ Mar Sonora”

A alvorada foi às 8:00, seguida de um delicioso pequeno-almoço, com o mar como pano de fundo. Aproveito para sentir a sua brisa, conhecer novas pessoas, perceber que muitos passageiros são marinheiros habituais, que criam amizades para a vida nas suas viagens , vou sentindo a alegria de todos que deixaram em terra as preocupações do dia-a-dia, que se sentem de alma lavada pelo mar e que agora desfrutam do prazer que é viajar… Vejo crianças deslumbradas nas suas fantasias estando a navegar num verdadeiro barco de piratas com o Capitão Gancho, a descobrir novas terras, novas gentes,… é evidente no olhar puro que transmitem.

Ancorámos, entretanto, no porto de Cádiz e, após almoço, saímos para a primeira visita em terra. Situada sobre a baía com o seu nome - Cádiz - e praticamente rodeada de mar, onde o oceano Atlântico e o mar Mediterrâneo se encontram, foi fundada pelos Fenícios no ano 1100 a. C. e todas as culturas passaram por ela: Gregos, Romanos, Visigodos e Árabes.

Tendo 3000 anos de História, é a cidade mais antiga da Europa Ocidental. No século XVI, após reinado árabe e devido à sua situação estratégica, começou a prosperar, sendo ideal para o comércio com o Novo Mundo. Por tal razão, duas das históricas viagens de Cristovão Colombo rumo à América saíram de Cádiz.
Situado junto ao bairro de “La Viña” e entre dois castelos, San Sebastian e Santa Catalina, fica a praia de “La Caleta”, a mais emblemática de Cádiz. Ocupa cerca de 23000 m2 e tem um encantador passeio marítimo de uma ponta à outra da praia.
“La Caleta” foi cenário do filme “Die Another  Day” com James Bond para várias cenas que eram passadas em Cuba. O motivo foi-nos explicado pela nossa guia, Dora: para muitos Cádiz é a “pequena Havana” pois o tráfego marítimo entre as duas cidades foi muito intenso durante vários anos, de tal forma que as duas cidades são parecidas uma com a outra.

A parte antiga da cidade é uma das zonas mais bonitas, e o seu centro histórico pode ser explorado em, sensivelmente, uma hora. Encontram-se edifícios espectaculares, belos recantos, pátios com o portão entreaberto que incitava a espreitar…
Após percorrermos o centro histórico, numa dessas ruas estreitas, fizemos uma paragem numa Taberna Flamenca :”La Cava”. A atmosfera daquele bar tinha algo de sedutor, adivinhava-se no olhar de todos que se deliciavam com a refrescante sangria e as tão conhecidas tapas de “nuestros hermanos”.
O vibrar das guitarras e as vozes emocionantes dos cantores silenciaram toda a sala e com uma postura indescritível, levantou-se Daniee Saltare, bailarino da companhia “Ballet Sara Baras” que, a partir daquele momento, anestesiou todos aqueles que tiveram o privilégio de ali estar, a sua maneira única de dançar flamenco, a sensualidade envolvida com emoção que emanava por todos os seus poros, ficaram vincados na memória de quem presenciou.

Durante as seguintes horas, não se falou de mais nada a não ser daquele momento. Regressamos ao nosso porto de abrigo, cansados mas felizes, pois Cádiz combina na perfeição, história, arquitectura, paisagem, belas praias e claro… puro flamenco!

O sol convidou a banhos e mergulhos na piscina que estava concorrida e muitos eram os que estavam estendidos nas espreguiçadeiras apenas a sentir os seus raios na pele e a retemperar energias.
Continuámos a nossa viagem a bordo, desta vez rumo a Casablanca.
Nessa noite respirava-se glamour por todo o cruzeiro. “Paris J´Adore” foi um espectáculo a combinar com esta noite especial, as plumas, o “can-can” muito ao jeito de “Moulin Rouge”.

Os “Corleone Big Band” encheram o salão com intemporais canções americanas da chamada “era do swing” durante a qual grandes orquestas dominavam a cena musical, tendo como símbolo máximo Glenn Miller.
E por último, “the last but not the least”, os  “Lucky Duckies”, com música dos anos 50, conseguiram, apesar da noite já ir longa, pôr tudo a dançar com a adrenalina ao máximo, ao som de músicas como “Goody Goody”, “Do it again” “C´mon everybody” entre outras.
Chegamos por volta das 7 horas a Marrocos e o “Princess Danae” fica ancorado num dos maiores portos artificiais do mundo: Casablanca, a capital económica do país.

Saímos de Casablanca rumo a Marraquexe. Passamos pelas suas ruas na hora de ponta e vê-se o acordar da cidade para mais um dia de trabalho. Nas margens do Atlântico fica o mais importante monumento da cidade. A mesquita Hassan II, a terceira maior do mundo seguida de Meca e Medina.

Ao longo do percurso até Marraquexe, que durou cerca de três horas e meia, apreciámos as diversas paisagens que iam mudando de cor. Campos verdes cultivados, campos secos, cactos, carroças puxadas por burrinhos, camponeses, vacas a pastar, cavalos, carneiros, casas soltas brancas, azuis, rosas.
À medida que nos aproximávamos do destino, avistava-se, no final do horizonte, as montanhas do Atlas e as palmeiras começam a desenhar-se, altas em conjunto de três, salpicando a terra castanha aparentemente seca.
Começámos então a adivinhar que chegáramos a Marraquexe pela cor das casas, percebo agora porque é chamada a cidade vermelha, apesar de parecer mais um tom de cor-de-rosa ocre.
O trânsito, é totalmente caótico onde parece que ´existe´ uma ´inexistência´ de regras de circulação.

Saímos do autocarro, e o primeiro contacto com a Medina é no mínimo diferente de tudo o que conhecemos. A Medina é cercada por uma imponente muralha erguida no século XII e tem catorze portas.
Começa uma intensa dança dos sentidos, um fascínio pelos cheiros inebriantes que se mesclam com os sons, a arquitectura, contrastes, cultura, um sem-fim de novas experiências nos invadem.

Percorremos os típicos souks (mercado árabe), onde se vende de tudo, exposto no chão, em mini lojas, em barracas, num incessante movimento de pessoas, motos, bicicletas, burros, carrinhos de mão, charretes, carros e mais pessoas, tudo em direcções cruzadas. Os veículos passam rasantes a nós como se fossemos invisíveis e atravessar qualquer rua que seja é uma verdadeira odisseia. Foi o que me aconteceu, fui ficando para trás, parada a observar a imensidão de acontecimentos. Quando quis atravessar, deparei-me com grandes dificuldades, sempre que dava um passo, alguma coisa se colocava à minha frente. O meu anjo da guarda foi um dos nossos guias que se colocou no meio da estrada com os braços abertos, literalmente, para eu conseguir atravessar!!!

A forma como as diferentes especiarias, flores secas, mini vernizes, frascos, frasquinhos, paus de canela, sementes, frutas, frutos secos, pão, incenso estão dispostos em latões, cestos, cestinhos é um verdadeiro encanto para a vista, apesar da higiene simplesmente não existir.

A maior parte das mulheres veste túnicas típicas marroquinas (djellaba), cobre o rosto com um foulard, não gostam mesmo nada da invasão da máquina fotográfica – quase sempre escondem a cara com a mão. Fazem pinturas nas mãos e braços com henna, lançam cartas, lêem a sina e vendem de tudo.

Visitámos uma ervanária com remédios naturais para todo o tipo de maleitas, tudo em frascos cada um da sua cor, cremes, chás, pozinhos milagrosos, ninguém sai dali doente e ainda se pode fazer massagens à cabeça, pernas, braços por 500 dirhams, cerca de 5 euros.

O negócio corre nas veias dos Marroquinos, basta um simples olhar, um toque para começar a venda. E nós temos que regatear! Geralmente um produto é vendido por um terço do seu valor inicial ou menos, dependendo da habilidade do comprador.

Num jeito labiríntico, passámos ruas e ruelas estreitas que desembocam no coração da cidade, onde encontramos a Praça Djemaa El – Fna, uma praça mágica, exótica, atraente, encantada e encantadora, onde se vêm faquires, curandeiros, músicos, contadores de histórias, acrobatas, serpentes a dançar ao som de flautas berberes. Com tanta novidade em tão pouco tempo, já nada devia impressionar, mas deparo-me com uma espécie de dentista, onde no chão, por cima de uma manta, dispõem várias dentaduras e dentes avulso, um verdadeiro atentado aos nossos hábitos esterilizados! Basta experimentar e se servir…  levar. Em caso de inflamação, o dente também pode ser ali, na hora, arrancado. Sem dúvida que fiz uma viagem no tempo.

Deixámos a praça. Muitas imagens, sons, olhares, cheiros, emoções apoderam-se de nós e nos marcam profundamente. Percebi o que faz da Praça Jemaa El- Fna Património da Humanidade.

Almoçamos no restaurante Chez Ali, num ambiente recriado digno das mil e uma noites, em tendas “Berberes” onde fomos servidos, por marroquinos com túnicas de um branco imaculado, pratos típicos como: tajine de borrego, couscous com legumes e o inevitável chá de menta. Tudo temperado com danças de todas as regiões e uma competição na arena de cavaleiros que galopam alinhados parando de repente e fazem disparar as armas num som ensurdecedor.

Regressamos ao nosso hotel flutuante, para uma realidade bem diferente de tudo que tínhamos presenciado. Apesar de Marrocos estar geograficamente perto de nós e que ao longo da História tenha havido vários cruzamentos das nossas culturas, as diferenças entre a nossa civilização ocidental e a deles são muito marcadas e profundas. Daí termos a sensação de estar do outro lado do mundo, num país distante…

A noite foi animada e divertida a bordo, sempre com muita música e animação.
Carlos Guilherme, o tão conhecido tenor português, enterneceu todos com a sua poderosa voz e nostalgia de todas as canções que, sabiamente, nos dedicou.

Fomos embalados confortavelmente pelo mar e pelas camas que durante a noite nos levaram até Tânger.

No ponto norte de Marrocos, banhada pelo Mediterrâneo e o Oceano Atlântico, Tânger distingue-se pela sua história e posição geográfica, sendo um ponto de encontro entre África e a Europa.
Entre 1471, passou para o controlo dos Portugueses, que dominaram a cidade até 1661, altura em que, ao abrigo do Tratado de Paz e Amizade com a Grã-Bretanha, a cidade foi oferecida à coroa Britânica como dote de casamento da princesa Catarina de Bragança, filha de D. João IV, que casou com o Rei D. Carlos II de Inglaterra.

Depois de uma visita à “Fantasia” onde assistimos a um show típico marroquino, fomos até ao Cabo Espartel com uma vista sobre o mar deslumbrante. A Medina e o castelo foram estrategicamente construídas no alto da baía de Tanger, o que proporcionava uma visão privilegiada de tudo o que entrava e saía no Mar Mediterrâneo.

Visitámos as caves de Hércules. Quando entrámos sentimos a humidade a percorrer todo o corpo, mas o negócio continua para os marroquinos e mesmo naquele ambiente escuro existem sempre”recuerdos” para os turistas comprarem. Dentro da gruta de pedra calcária, inundada de água a cada maré alta, o ponto alto é a recortada abertura para o mar onde podemos admirar uma paisagem inesquecível sobre o Atlântico. Reza a lenda que Hércules, metade Deus, metade homem, faleceu na gruta depois de ter separado com um só sopro África da  Europa.
Fora das portas da cidade antiga – Gran Socco – encontrámos o maior dos mercados, onde homens do deserto e camponeses vêm vender os seus produtos, em pequenas barracas e em expositores com toalhas sobre o chão.
No Petit Socco, no interior da Medina, entrámos novamente num labirinto de ruas e ruelas estreitas, as casas são, na sua maioria, amarelas sempre com roupa pendurada nas janelas.
Vemos muitos cafés com esplanadas, onde os homens, só os homens, passam o dia nas suas mesas a conversar, tomar chá de menta e ver a vida suceder. Melodias harmoniosas intercaladas com os gritos das crianças, provêm das casas construídas na colina num estilo tipicamente árabe e onde vivem milhares de pessoas.

Existem chuveiros comuns, onde as mulheres pagam mais do que os homens, não por qualquer tipo de descriminação - dizia-nos o nosso pitoresco e engraçado guia, com um sorriso provocador: “Pagam mais porque são mais demoradas que os homens, têm cabelos compridos e pintados com henna e levam muito tempo a lavá-los, mas também porque conversam muito umas com as outras”. É justo!

Seguimos o cheiro do pão quente e encontrámos um forno de lenha comum numa cave. Provámos o pão redondo e achatado que é bastante saboroso. Senti que ali se vivia em comunidade e que se respirava a vida dos seus habitantes.

Continuámos pelos souks de Tânger onde o assédio dos vendedores é grande. Deparámo-nos novamente com realidades muito diferentes das que estamos habituados. Vende-se de tudo, desde garrafas de água e coca-cola substituídas por leite, peixe em cestos, legumes, frutas, especiarias de todas as cores, sapateiros, costureiros, barbearias, lojas que arranjam todo o tipo de aparelhos electrónicos, que nos pareceriam da pré-história, tais como gira-discos, rádios a pilhas, televisores a preto e branco e leitores de VHS. Ali, além de existirem, ainda têm o direito a uma segunda, terceira, quarta oportunidade.

Deixámos Tânger e embarcámos no nosso hotel. Sabe bem ter sempre o nosso quarto à espera, independentemente do ponto do globo onde estamos e saber que as nossas malas estão tranquilas, sem termos de andar com elas de um lado para o outro.

Seguiram-se as conversas sobre tudo que tínhamos visto, conhecido, aprendido, as novas amizades, o pôr do sol lindíssimo visto do navio e o sentimento comum que a viagem foi, em todos os momentos, uma surpresa agradável.

Cabelos cor de prata, olhos meigos, alegre, uma senhora com 82 anos, com espírito de uma jovem de 20 anos, mas com a sabedoria da experiência, encantou-me toda a viagem. Não resisti a perguntar-lhe qual o segredo da sua juventude, ao que me respondeu:
“- O segredo da minha juventude?!... é muito simples, aproveito todas, mas mesmo todas as coisas boas que a vida me dá, as menos boas, essas embrulho-as muito bem e deito-as fora. E estes cruzeiros que costumo fazer são uma das coisas boas que a vida me proporciona, por isso aproveito-os ao máximo!” e acrescentou “Encontramo-nos no próximo?”