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Encontros e desencontros no País do Sol Nascente

Talvez em mais nenhum país seja tão fascinante e marcante a mistura de tradição e discrição com a mais escancarada modernidade como no Japão. É esta a sensação que de imediato invade qualquer turista que chegue a este país ultra contemporâneo, mas que não deixa de ser a terra das gueixas, dos bonsais, da cerimónia do chá, do origami
Um país-arquipélago no extremo leste da Ásia que se diferencia em tudo do resto dos países do Oriente. E do Ocidente também.
Um Japão que passou grande parte da sua história fechado para o resto do mundo, que cabe numa área de 377,8 mil quilómetros quadrados, distribuídos entre quatro grandes ilhas e quase 4 mil ilhotas onde moram 127 milhões de pessoas, e que tem no perfeitamente simétrico Monte Fuji uma das suas maiores atracções. Para além, claro, de mais uma lista interminável de fascinantes razões para ser visitado.

Por Fernando Borges

Localizado no Pacífico Norte, ao largo da Coreia de Sul, um conjunto de quatro ilhas principais – Honshu, Shikoku, Kyushu e Hokkaido – e mais 3 mil ilhotas, formando um arco curioso, formam também um país no mínimo diferente e único, o Japão. Sem esquecer que este é também um dos países culturalmente mais ricos, onde todos os seus habitantes possuem um patriotismo bem acima da média, professando o xintuismo e o budismo. Um país ocidentalizado, mas diferente do Ocidente, moderno, mas com tradições milenares, e talvez por tudo isto, um daqueles destinos para onde devemos partir acompanhados de uma mente aberta. Para além de uma carteira sem fundo e uma forte capacidade de nos deixarmos surpreender.

São muitas as atracções deste Japão que conheceu duas bombas atómicas, soube sobreviver e transformar-se na segunda potência económica. Um Japão florido, alegre, vestido de verde e rodeado por uma água que aqui parece ter também um azul único.
O Japão de Tóquio, com edifícios futuristas, jovens cheios de atitude, infinitas possibilidades de compras e construções seculares, de Kioto, a antiga capital, com as suas ruas estreitas, canais, 1 700 templos budistas e 300 santuários xintoístas que escaparam ilesos dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. Sem esquecer o Japão do castelo, da gastronomia e do teatro de bonecos de Osaka e, claro, do fotogénico Monte Fuji, do alto de seus 3 776 metros.

Se a beleza natural e a espiritualidade são duas das principais atracções deste país do Extremo Oriente, as suas cidades são também um forte apelo para quem quer conhecer ou descobrir algo diferente.
E é assim que aparece Tóquio, uma cidade que logo aos primeiros passos nos avisa que estamos na cidade mais cara do planeta. Apesar de ter bons hotéis com diárias a partir de 50 euros, restaurantes populares que servem comida japonesa a 5 euros e muitas atracções gratuitas.

Atracções essas que não vão para além do simples andar pelas ruas Shinjuku, onde ficam os arranha-céus e o bairro mais boémio, Shibuya e Harajuku, lugares preferidos dos jovens de cabelo colorido e roupas extravagantes, por Omotesando e Ginza, os endereços de Prada, Louis Vuitton, Dior e Chanel, por Akihabara, o céu dos fãs de tudo o que é electrónico e que têm em comum, à noite, o fascínio das placas cheias de ideogramas acesas, e que só por si são um verdadeiro espectáculo.
Mas a capital japonesa tem também à espera do visitante o bairro de
Asakusa, onde está o mais velho templo budista, Senso-Ji, erguido em 628, e a ligação de barco a Odaiba, uma ilha artificial transformada no lugar mais futurista da metrópole mais high-tech do mundo. Uma viagem através do Faz Rio Sumida que é também como viajar do século VII directamente para a segunda metade do século XXI.

E visitar Tóquio é assim mesmo: ir do cenário de O Último Samurai ao de Encontros e Desencontros no mesmo dia, sem a ajuda de qualquer máquina do tempo.
E quando os moradores de Tóquio querem passar um fim-de-semana numa estância termal, vão para a Península Izu.

Com praias bonitas, muito verde, estradas estreitas e curvas impossíveis que percorrem toda uma costa que, no mínimo, podemos considerar se peculiar, com a cidade de Atami a ser a mais concorrida da península e onde a principal forma de sentir o tranquilo espírito que nos envolve passa por escolher um rvokan para nos hospedarmos, o hotel japonês típico, vestir um yukata, tomar um banho colectivo e… boa viagem até Yokohama.

Yokohama é uma cidade envolvida na sua longa história de pioneirismo, onde chegaram os primeiros navios estrangeiros bem-vindos ao país, onde foi fabricada a primeira cerveja do Japão, em 1869, o primeiro gelado, em 1879, e ainda onde foram inaugurados o primeiro estúdio fotográfico (1862), o primeiro cinema (1870) e a primeira padaria (1860). A cidade que gosta de ser a mais, a maior e a melhor em tudo.
E é nesta cidade que fica o prédio mais alto do país, a Landmark Tower, que por sua vez tem o elevador mais rápido de todo o planeta - sobe cerca de 290 metros em 40 segundos, que não conseguiu superar Tóquio em tamanho, mas que ganha em beleza e simpatia.

Uma cidade que se orgulha de seus ares internacionais e que tem como famosas atracções o tradicionalismo de Chuka Gai, o bairro chinês que contrasta radicalmente com a modernidade de Minato Mirai 21, para além da Landmark Tower, oferece uma das mais belas vistas do Japão a partir da ponte que liga o porto de Honmoku ao Daikoku, uma visão panorâmica da região do porto até do Monte Fuji de rara beleza e de puro encantamento.
E esta poderia ser a ponte de um imaginário que nos transportaria até àquela que por mais de mil anos, de 794 a 1868, foi a capital do Japão, Kioto. Uma cidade que viu a sua arquitectura que conta onze séculos de história sobreviver aos bombardeamentos da II Grande Guerra,
onde os mais velhos ainda se dedicam à demorada cerimónia do chá e resiste a modernidades.
Ainda assim, há sempre uma aura de juventude no ar, seja por causa dos estudantes das suas 37 universidades, seja pelas maiko - aprendizes de gueixa - que planam pelas ruas do tradicional bairro de Gion.
As tradições do Japão não ficam apenas pela suavidade do caminhar das gueixas, pelos templos ou pela cerimónia do chá. Também a gastronomia faz parte da história do País do Sol Nascente e ancestrais costumes.
Peixe cru, algas, gengibre, soja… e seja bem-vindo a uma das cozinhas mais exóticas e saudáveis do planeta.


Também aqui há lições a aprender. Lição número um - tire os sapatos. Lição número dois - prepare-se para, eventualmente, se sentar no chão. Lição número três - esqueça garfos, facas e colheres e aprenda a manusear os hashis - pauzinhos que substituem os talheres.
Tomadas essas providências ou normas de etiqueta nos melhores restaurantes japoneses, chega a hora de experimentar uma das refeições mais elegantes, leves, saborosas e bonitas do planeta. E bom apetite! Ou, como dizem os japoneses, doozo meshi agate kudashi!
Um bocado de arroz, filete de peixe fresco e muita habilidade com as mãos. Só isso já basta para preparar as grandes estrelas da cozinha japonesa. Facas adestradas cortam fatias cruas de atum ou salmão - para citar apenas os peixes mais apreciados - e pronto. Temos os delicados e saborosos sashimis. É só acrescentar pequenos bolinhos de arroz moldados com a mão sob fatias de peixe para que se transformem nos famosos sushis.
Os sushis também podem ir directamente para o fogão e minutos depois, chegar à mesa grelhados, macios, desfiando-se ao primeiro toque.
A culinária japonesa é assim: simples! Usa poucos ingredientes num mesmo prato e interfere o mínimo possível nos alimentos, procurando preservar seu sabor e características naturais. Temperos quase que não existem. Existem até alguns ingredientes usados para estimular o paladar para que se sinta o verdadeiro sabor dos alimentos - caso do gengibre, servido numa espécie de conserva agridoce, e da wasabi, a raiz forte esverdeada que acompanha alguns pratos crus.

Mas nem só de peixe e arroz vivem os japoneses. Legumes, vegetais, cogumelos, carnes e frutos do mar complementam os cardápios. Não podemos ainda esquecer as algas e principalmente, a soja. Seus derivados são fundamentais na cozinha, dando o gosto característico ao misoshiro, a sopa consumida geralmente como entrada, enquanto o molho shoyo empresta o seu sabor marcante ao temperar sushis e sashimis.
Um sabor exótico, como exótica é toda a beleza natural deste conjunto de ilhas no Pacífico Norte, a delicadeza dos gestos de todo um povo que sabe receber, a perfeição dos bonsai e a singeleza dos templos seculares desse encantador Japão.