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A cidade das 1001 magias Desde há séculos que Marrocos embala a fantasia dos ocidentais. Viajar por todos esses séculos, seria uma viagem cansativa, embora interessante, mágica e até apaixonante. Façamos um golpe de magia e recuemos no tempo apenas até 1942, quando o filme Casablanca arrebatou paixões nas salas de cinema de todo o Mundo, com Bogart e Bergman. Embora os cenários fossem falsos, toda a história e o ambiente criado nos estúdios da Warner deram a conhecer essa terra de 1001 encantos e cenários de rara beleza. Cenários tão diversificados que vão da costa atlântica ao deserto do Sahara, do Mediterrâneo aos picos do Atlas, do colorido estonteante do mercado de Fez às praias de Essaouira, das aldeias berberes em terracota à deliciosamente fascinante e surpreendente Marraquexe, o nosso Destino Cidade Por Fernando Borges Depois de uma viagem rápida a “pisar” nuvens e de uma escala em Casablanca, durante a qual alguns receios se apoderavam de mim, principalmente porque, confesso, não sou um grande apreciador desta África das 1001 noites, preferindo a África de Tarzan, o bafo quente que sopra do deserto de Sahara e contorna o Grande Atlas, rapidamente me envolveu assim que a porta do avião se abriu. Este era um receio aliviado por estar na companhia da simpatia e amizade da Mónica e do David, dois jornalistas da TVI que me acompanhavam nesta viagem, companheiros também de outras aventuras por esse mundo, pela alegria contagiante e profissionalismo da Carole Moreira, directora em Portugal do Club Med, e por duas pessoas até então desconhecidos, a estilista Elsa Barreto e o Henrique, um dentista de Braga, que desde logo ajudaram a preencher a atmosfera de simpatia e companheirismo. E assim estavam ultrapassados alguns receios. O de poder ser uma viagem aborrecida, de ser mais uma “peregrinação” do que uma viagem onde o trabalho e o prazer se casam na perfeição, uma viagem irritante onde tudo é muito certinho, previamente e rigidamente agendado, em que fosse mesmo improvável que esta descoberta de Marraquexe pudesse ter cenas dignas de um filme de Bertolucci ou de uma parágrafo dos livros de Pawl Bowles. Não, tudo se conjugava, desde a partida de Lisboa, que esta se tornasse numa viagem de muitos sentidos. Até porque, à nossa espera estavam o Club Med La Medina e o Club Med La Palmeraie. E se houvessem ainda alguns receios mais resistentes, chegados ao Club Med La Medina, estes desapareceram com a serenidade e encanto deste “village” de estilo mourisco com os seus quartos à volta de pátios impregnados de puro ambiente marroquino, fontes e jardins, numa atmosfera íntima que contrasta com a vida que se sente, ouve e se cheira para lá dos seus muros e localizado a dois passos onde Marraquexe fervilha a um ritmo hipnótico, a praça Jemaa el-Fna. É o oásis ideal para dar início à descoberta de uma cidade que sempre se caracterizou por ser um verdadeiro e fascinante mosaico humano, onde mulheres de jeans e de burca circulam pela medina, onde uma multidão interrompe das suas actividades para rezar, onde coexistem pacificamente islâmicos, judeus e católicos. Uma praça povoada de agitação, onde os raios de sol no seu declínio ganham mais magia projectando as sombras dos palácios que a rodeiam, dos terraços onde milhares de turistas tomam o seu chá de menta enquanto se deliciam com o ritmo e sons de contadores de histórias, acrobatas, encantadores de serpentes, músicos bérberes e gnaouas… Mas também o ponto de partida para a encruzilhada de ruas e ruelas que compõem o labirinto dos soukes e que desaguam em pequenas praças envoltas por palácios e ryads desta cidade imperial. Aqui, a orientação é uma utopia e nem um GPS nos serviria para o que quer que fosse. Afinal, o fascínio desta cidade está também no deixar-se perder pelas ruelas cobertas por um xadrez de canas que lhes confere uma luz misteriosa, deixar-se passear enquanto admira as toscas e imperfeitas paredes de tons garridos guardadas por pesadas portas centenárias, ora de madeira, ora em ferro. Todas com uma história para contar, ricas em pormenores e meticulosamente trabalhados pela mão de verdadeiros artistas e que escondem pequenos paraísos, casas tradicionais construídas em torno de um pátio interior ajardinado e com pequenas fontes, os tais ryads. Cidade exótica, encantada e encantadora que nos persegue com o seus constantes jogos de pura magia entre os odores das especiarias, os sons dos tambores e os sabores intensos que nos perseguem constantemente enquanto nos embrenhamos pelos soukes e Medina, admiramos os contraste da sua arquitectura sem conseguir resistir a entrar nas lojas de artesanato onde nos é oferecido um “thé à la menthe”. Ou olhamos o horizonte em direcção do Alto Atlas que nos espera para uma expedição em 4x4. A Marraquexe também das pequeníssimas janelas entreabertas, das mesquitas de onde saem os sons das orações, do zurrar dos burros que percorrem as mais estreitas ruelas arrastando velhas carroças em constante competição com frágeis motorizadas carregadas de marroquinos que ziguezagueiam entre milhares de pernas que enchem por completo todos os centímetros quadrados de um chão acastanhado. Uma verdadeira explosão de sentidos que atinge o seu climax quando as bancas de comida se começam a instalar, ao final do dia, em plena Jemaa el-Fna e a atmosfera é invadida pelos cheiros das espetadas a fumegar na grelha, dos aromas das carnes assadas, dos couscous e da harira. Até que as lanternas desta praça mágica se acendem e toda uma magia acontece ao som dos tambores, flautas e alaúdes. |
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