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Pérola de África


Regresso a África, o meu continente de eleição, para conhecer o Uganda, um pequeno país do sudoeste africano centrado sobre a linha do equador e entalado entre o Quénia e a Tanzânia, o Congo e o Ruanda. Pela sua situação geográfica é uma África que dizem ser diferente, é verde e montanhosa, composta por florestas e savanas praticamente virgens, onde a fauna é diversa e abundante. Possui lagos e crateras ancestrais, é atravessada pelo rochoso Rift Valley e a noroeste nasce um dos maiores rios do mundo, o rio Nilo.
Durante quinze dias percorri o Uganda num jipe velho e cambado. Ronnie, o meu guia e eu fizemos 2480 km por estradas quase que intransitáveis. Explorei selvas e savanas, conheci aldeias, escolas e mercados, privei com curandeiros, professores e gentes de olhar vivo e alma grande. Uma viagem realizada de norte a sul, uma aventura com direito a diversos stops para conhecer a Pérola de África.

por Maria da Assunção Avillez (Fotografias e Texto)

 

Rumo a Norte

Saímos da capital, Kampala, às 5 horas da manhã em direcção a norte. O dia anuncia-se quente e as centenas de quilómetros de estrada de terra batida prometem ser duras mas, é tal o meu contentamento que depressa me esqueço do percurso que tenho pela frente. Ronnie é jovem, bom conversador e parece ser desenrascado, fala-me do seu país mas pressinto que morre de curiosidade por saber o que afinal faço eu ali, sozinha, com uma mochila e duas câmaras penduradas ao pescoço. O primeiro stop é para observar a nascente do rio Nilo um lugar que desde sempre sonhei conhecer. Aproximamo-nos. É ali mesmo junto ao Lago Vitória que nasce o Nilo Azul, a este junta-se o Nilo Branco e importantes afluentes que atravessam o imenso continente africano criando lagos, deltas e barragens até finalmente este se mostrar tal como o vi a deslizar belo e poderoso em terras de faraós. Satisfeita com a visita efectuada seguimos ainda mais para norte ao encontro do Parque Nacional de Murchison Falls. Os cerca de 400 quilómetros por estradas quase desertas e esburacadas levam-me a conhecer a cidade de Hoima com direito a uma breve paragem para comer uma galinha apaladada e comprar cinquenta garrafas de água. Segue-se então a cidade de Masindi onde o burburinho é grande pois a presença do nosso jipe é um acontecimento. Ali, aproveito para tirar umas fotografias num cabeleireiro local, enquanto Ronnie atesta o depósito do jipe cansado. Foram precisas mais de sete horas para chegar ao destino final, mas devo dizer que valeu tudo pois o Parque de Murchison Falls é magnífico. Entusiasmados fazemos uma caminhada para espreitar de mais perto as quedas de água. À brutal explosão do Nilo Azul que corre furioso através de uma garganta estreita e rochosa do Rift Valley, junta-se o barulho ensurdecedor das águas, o céu fica de repente negro e constato que não há viva alma. Um momento mágico, fantástico!

Depois de admirar este espectáculo impressionante, dirijo-me então para pernoitar no Paraa Safari Lodge. Assim atravesso a margem do rio, numa jangada ferrugenta, até ao meu poiso admirando uma paisagem nova e luxuriante. O hotel inaugurado pela rainha Isabel II de Inglaterra nos anos cinquenta em tudo mantém o seu aspecto " British". Um edifício estreito e longo, implantado numa pequena elevação que só por si vale pela panorâmica.
O hotel tem pouca clientela mas é simpático. Chego ainda a tempo de dar umas boas braçadas na piscina e de me aprontar para o jantar. Um jantar de ementa simples e correcta numa sala repleta de estrangeiros, uns de passagem em trabalho, outros em viagem tal como eu.
 Por ali fiquei três dias. Tempo repartido entre passeios pela savana ao encontro de leões, elefantes e pássaros lindíssimos que se mostravam espantados com o ruído do jipe e, ainda, diversas pausas para desfrutar da paisagem acompanhada de muita leitura. No último dia naveguei ao sabor das águas tranquilas do Nilo, um belíssimo passeio apesar do calor intenso que se fazia sentir. Durante o percurso junto às margens, vi os célebres crocodilos do Nilo, hipopótamos de olhar pouco amigo e plantações de papiros, cenários quase divinos que me fizeram relembrar imagens do antigo Egipto. Um lugar especial onde quase me senti sozinha no mundo.

Em direcção a Sul rente ao Rift Valley

Com piquenique encomendado à maneira eis nos de partida para o próximo destino, a floresta de Kibale. São cerca de 500Km por estradas quase sempre de terra batida onde, de quando em quando, aparece um camião de difícil ultrapassagem. Por vezes esta corre rente ao Vale Albertine, o famoso e ancestral Rift Valley, um trajecto perturbador se pensarmos que neste lugar há 35milhões de anos o calor subterrâneo provocou a ruptura da crosta terrestre erguendo cordilheiras e provocando vulcões que deram origem a crateras e lagos mudando para sempre a desenho desta paisagem africana. Curiosa e impressionada já só penso em comprar um livro que me fale mais e melhor sobre o Rift Valley.


A visita à floresta de Kibale tinha por objectivo observar árvores antigas e raras, pássaros e chimpanzés. Assim logo pela manhã e depois de um pequeno-almoço no charmoso terraço do meu lodge junto-me a dois ingleses para o passeio na selva. À medida que seguimos floresta adentro deixo-me envolver pela transparência da luz, pelo canto dos pássaros e pelo cheiro da terra fresca. Surpreendida com a descoberta dos chimpanzés fico atenta aos ensinamentos do guia, enquanto assisto aos múltiplos saltos, às comezainas e aos verdadeiros passos de acrobacia que estes ensaiam sobre as árvores.
Depois desta manhã gloriosa recheada de emoções sigo para pernoitar no Parque Nacional Queen Elizabeth a sul dos montes Rwenzori, conhecidos na antiguidade pelos Montes da Lua, situados  junto à fronteira do Congo. Esta reserva natural é constituída por dois grandes lagos, o Lago Edward e o Lago George que se localizam a 910 metros de altitude criando assim um ecossistema húmido que contrasta com a secura da savana.
Criado em 1952, ano da coroação da rainha Isabel II de Inglaterra, este parque convida a numerosos safaris para observar os animais em plena liberdade e a tranquilos passeios de barco entre os lagos. Um lugar de uma beleza rara e serena o local ideal para uma pausa de dois dias para quem avança rumo a sul.

Os Gorilas da Montanha

Mas o apogeu desta viagem é o “Tracking”, de quatro dias, à impenetrável floresta do Parque Nacional do Bwindi situado a sudoeste do Uganda. A expectativa de poder observar de perto os gorilas da montanha, espécie de primatas em vias de extinção e que só naquele território existem, põem a minha adrenalina ao rubro.
À medida que nos dirigimos em direcção das montanhas tenho a percepção nítida do que é realmente uma floresta tropical, húmida e escura. Dizem-me que nesta floresta há cerca de 360 gorilas, (metade da sua população mundial), divididos em grupos, alguns dos quais habituados à presença humana. Aliás foi por aqui que a famosa cientista Dian Fossey estudou o comportamento destes primatas. Nesta floresta vivem ainda borboletas raríssimas, onze espécies de primatas e muitos outros animais. Mas aquilo que tanto queria e a que me tinha proposto − olhar de perto os gorilas -, obrigou-me a diversas vacinas e a responder a um questionário cerrado afirmando que me encontrava apta e de perfeita saúde para caminhar na floresta entre 4 a 8 horas por dia.
Assim foi. Chego ao meu acampamento às portas da floresta às 4,30 da tarde sob uma chuva torrencial. Estou a 2800 metros de altitude, sozinha, numa tenda assente sobre pilares de madeira onde faz um frio danado. Às 5.00 da madrugada acordo e pressinto que tempo melhorou. Pouco depois Ronnie vem-me buscar e seguimos até ao ponto de encontro dos “rangers”.
O dia está lindo e as montanhas recortadas no horizonte são de facto deslumbrantes. Depois de apresentar os meus papéis e o passaporte ao “ranger”, este, explica-me que lá dentro na floresta não se pode fazer barulho, olhar de frente para os gorilas, nem levar comida e nem pensar em fotografar com flash. Por fim, pergunta se estou preparada para a caminhada e então penetramos finalmente na floresta. O trilho é estreito, há troncos caídos e a vegetação é densa e confunde-me. Andamos mais de duas horas e aos poucos habituo-me à luz, ao silêncio e a tudo o que me rodeia. Ao fim de 3 horas avisto um Silverback imponente, um gorila de dorso prateado tido como o macho dominante e protector, seguido por crias e fêmeas. Impressionada com o facto de estar tão próxima dos gorilas, mais do que tinha imaginado, já não sei se quero olhar ou fotografar mas, o que vi e fiquei a saber é que são de facto meus primos direitos e, há quem afirme que estes são 98% geneticamente idênticos aos humanos.
Passou pouco mais de uma hora e o “ranger” dá sinal que é tempo de abandonar o local. Maravilhada e ainda entregue a tudo o que vi agradeço aquela manhã única e jamais vivida.
Seguiram-se mais duas manhãs emocionantes por novos trilhos em busca dos gorilas, as tardes mais calmas foram guardadas para visitar a região.
Despeço-me deste lugar. Na recta final desta viagem, já em Kampala, em conjunto com Ronnie faço o balanço da estadia e deito contas à vida. Agradeço a sua dedicação, profissionalismo e prometo voltar. Comigo levo dias novos e diferentes, percursos onde me senti mais do que nunca obrigada a apurar os sentidos. Afinal uma África distinta, ainda quieta e silenciosa onde a natureza é quem mais ordena.

GUIA DE VIAJEM

Como ir Across Luxury Travel & Safaris. www.across.pt

Capital Kampala

Superfície 236.040 km2

População 28.195.754 habitantes

Língua oficial Inglês, luganda e kiswahili.

Clima 16° a 25°C. - Clima Equatorial húmido, mas temperado. (Atenção ao frio nas regiões altas).

Moeda Shilling - 1€ = 2200 UShg.

Diferencia horária     GMT + 3 horas.

Electricidade 220 a 240 volts. Tomada tipo “inglesa”.

São obrigatórias diversas vacinas Febre-amarela, tétano, Hepatite e Malária.

Consulta do viajante Hospital Egas Moniz.

Quando ir  Julho a Setembro e Dezembro a Fevereiro

São precisas autorizações para entrar na floresta do Bwindi para observar os gorilas, informe-se junto do seu agente de viagens.

Passaporte válido por 6 meses. Pedido de visto à chegada ao aeroporto.

O Grande Vale do Rift

É um complexo de falhas tectónicas criado há cerca de 35 milhões de anos com a separação das placas tectónicas africana e arábica. Esta estrutura estende-se no sentido norte-sul por cerca de 5000 km, desde o norte da Síria passando por diversos países africanos até ao centro de Moçambique, na Tanzânia, a norte do Lago Niassa, o vale divide-se mais uma vez, com um ramo que segue para noroeste e depois para norte, formando o Lago Tanganyika, que faz a fronteira entre a República Democrática do Congo, a Tanzânia e o Burundi, a seguir Lago Kivu, que separa o Ruanda do Congo, os lagos Eduardo e Lago Alberto, com uma das nascentes do rio Nilo, que o separam do Uganda e que é chamado Rift Ocidental ou Albertino, onde se encontra a maioria dos Grandes lagos Africanos, já mencionados. O Lago Vitória encontra-se entre os dois ramos do Vale do Rift

Os Parques Nacionais do Uganda

O Uganda possui 10 Parques Nacionais com uma logística organizada.
A não perder o Parque Nacional de Murchison Falls, a maior reserva natural do Uganda com 5025 Km², divididos por savanas e florestas de fauna e flora riquíssima atravessada pelas vertiginosas quedas de água do rio Nilo. O Parque Queen Elizabeth pelos seus exuberantes lagos e savanas cuja fauna e flora é riquíssima. O Parque Nacional da Floresta do Bwindi, património da Unesco, com mais de 331 Km², situado junto ao Vale Albertine. Uma floresta tropical e húmida, tida como das mais importantes de toda a África e onde pode ver os Gorilas da Montanha uma das espécies em vias de extinção.

O Nilo

O Nilo é um rio do nordeste do continente africano que nasce a sul da linha do equador e desagua no Mar Mediterrâneo. A sua bacia ocupa uma área de 3 349 000 km2 abrangendo o Uganda, Tanzânia, Ruanda, Quénia, República Democrática do Congo, Burundi, Sudão, Etiópia e Egipto. A partir da sua fonte mais remota, no Burundi, o Nilo apresenta um comprimento de 6695 km. O Nilo propriamente dito começa em Jinja (Uganda), na borda norte do Lago Vitória, correndo para norte através das quedas Ripon passando pelo Lago Kioga e pelo Lago Alberto. O ramo entre estes dois lagos é conhecido como o Nilo Vitória.

O que levar para a sua visita às Montanhas dos Gorilas

Um anorak leve e à prova de água, camisola quente e fina, tee-shirt para assim que estiver calor e sair da floresta se possa sentir mais fresca, calças impermeáveis e se possível contra mosquitos bem como uma camisa, meias finas, botas confortáveis próprias para andar e à prova de água, chapéu, creme protector solar sem cheiros e repelente igualmente sem cheiro, luvas finas, (tipo jardinagem), para se poder agarrar às arvores, arbustos e não se magoar. Água e nunca, nunca esquecer a câmara fotográfica, lentes 200-300, rolos fotográficos e uma pequena maquina digital automática para poder disparar à sua vontade e sem perder tempo.